SÃO PAULO - Dados da
Associação Nacional dos Bancos de Investimentos
(Anbid) mostram que a maior parte da captação
- especificamente 39,4% total - de empresas durante o primeiro
semestre deste ano com emissão primária de ações
foi levantada com a intenção de possibilitar
a aquisição de participação acionária.
No ano passado, essa alocação ocupava o segundo
lugar nas emissões, representando 21,6% do total. O
aumento, segundo analistas ouvidos pelo DCI, mostra uma tendência
de consolidação das companhias com capital aberto,
em especial as dos setores de construção civil,
telecomunicações e educação. O
motivo seria a necessidade de geração de escala,
com mais ganhos e custos reduzidos - combinação
que permite mais competitividade.
Conforme a Comissão de Valores Mobiliários,
no período, quatro empresas emitiram ações,
somando R$ 7,6 bilhões. São elas: OGX Petróleo
(R$ 6,7 bilhões), Le Lis Blanc (R$ 170 milhões),
Hypermarcas (R$ 800 milhões) e Nutriplant (R$ 20,7
milhões). Do valor total, 37,2%, segundo a Anbid, seriam
utilizados para atividades operacionais e para investimentos
em infra-estrutura. No ano anterior, essa fatia representava
a maior parte das destinações: 33,8% do total.
"Quando uma empresa vem a mercado, ela já tem
a intenção de comprar outras empresas",
lembrou Marcelo de Faro, economista da Intra Corretora. "Isso
deve estar se acentuando um pouco mais porque, de certa forma,
as cotações caíram bastante nos últimos
meses. Então, algumas companhias aproveitam esse momento
desfavorável a outras empresas para fazer uma fusão
e fortalecer o seu negócio", lembrou o especialista.
Faro indicou que o setor de telefonia, exatamente pela necessidade
de investimentos por ele demandado, é um daqueles que
já passam por um processo de consolidação.
O exemplo mais recente verificado nesse sentido é a
compra da Brasil Telecom pela Oi (Ex-Telemar), feita há
poucos dias. A compra de ações preferenciais
da companhia, feita como parte da estratégia de aquisição,
movimentou R$ 947 milhões no pregão eletrônico
do último dia 22, atingindo o objetivo, que era a aquisição
de até um terço dos papéis da empresa
em circulação.
Especialistas vislumbram ainda que o setor de construção
civil tenha, em cinco anos, a metade de empresas listadas
na Bolsa. Atualmente, são 25 as companhias. "Nos
Estados Unidos são cerca de cinco empresas", afirmou
Roberto Hage, da Nova Financial. "Esse
segmento tem grandes riscos, com perda média de 30%
nos últimos 12 meses encerrados em junho", justificou.
A opinião não é isolada. "As grandes
companhias comprarão as menores que estiverem com fluxo
de caixa positivo", prevê a analista de renda variável
da Global Equity, Mariana Gonçalves. A Cyrela, por
exemplo, anunciou recentemente a incorporação
da Agra. Conforme comunicado encaminhado ao mercado, a combinação
das duas companhias "consolidará a posição
de liderança da Cyrela no mercado de incorporação
imobiliária com landbank de aproximadamente R$ 30 bilhões
de vendas potenciais e lançamentos previstos para 2008
em torno de R$ 10 bilhões [sendo cerca de 65% a participação
relativa da companhia combinada]".
Mariana também acredita que o ramo de educação
tem um grande potencial de consolidação. Apesar
de poucas empresas do segmento possuírem capital aberto
- hoje são quatro: Estácio Participações,
Anhanguera Educacional Participações, Kroton
Educacional e Sistema Educacional Brasileiro -, o setor passa,
atualmente, por uma "profissionalização".
"Essas empresas eram familiares. Hoje, fundos de investimentos
tentam fazer essas companhias serem mais rentáveis.
O País demanda muito esse setor", afirmou a analista.
Para o diretor da Trust Investimentos, Edson Hydalgo Júnior,
a utilização do mercado acionário para
a consolidação de empresas resulta não
só em ganho de escala e diminuição nos
custos, mas também no desenvolvimento dos negócios
de renda variável. "Para abrir capital, a empresa
precisa seguir normas de governança corporativa, que
levam a uma gestão mais profissional", disse.
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