| SÃO PAULO - O mercado
de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI)
e de Fundos Imobiliários procura ganhar fôlego
no Brasil. Para isso, as empresas emissoras pleiteiam uma mudança
na legislação, que acabaria com a obrigatoriedade
dos bancos de direcionarem pelo menos 65% dos recursos depositados
em poupança para o crédito imobiliário.
Isso abriria a possibilidade para que as instituições
financeiras buscassem outras fontes de recursos, principalmente
a securitização de suas carteiras. Mas a proposta,
já aceita pelo Governo Federal, esbarra nas construtoras.
Segundo Rodrigo Machado,
diretor da Brazilian Mortages, há um temor, por parte
das construtoras, de que as empresas que emitem CRI e estruturam
Fundos Imobiliários, como a Brazilian Securities, não
consigam suportar a forte demanda por crédito imobiliário.
"No entanto, o volume de emissões está
crescendo significativamente, e isso mostra o potencial que
as empresas têm para dar conta do recado". No primeiro
semestre, foram R$ 2,5 bilhões em emissões de
CRI no mercado, valor que já supera todo o volume do
ano passado. "Para esse ano, esperamos bater os R$ 4
bilhões", afirma Fernando Pinilha, diretor de
Relações com Investidores da Brazilian Securities.
No entanto, o diretor do Sindicato das Empresas de Compra,
Venda, Locação e Administração
de Imóveis Residenciais e Comerciais de São
Paulo (Secovi-SP), Celso Petrucci, afirma que essa discussão
não deve acontecer agora. "É natural que,
em algum momento, a capacidade da poupança para atender
o crédito imobiliário se esgote. A ampliação
do mercado de CRI é algo que vai acontecer". Mas
ele defende uma política de transição
para que haja uma passagem gradual da poupança para
a securitização como fonte de recursos. "E
as conversas sobre como vai ocorrer esse processo só
devem acontecer a partir de 2009", afirma Petrucci.
Para Eduardo de Barros, sócio da Nova Financial,
grupo financeiro focado na prestação de serviços
especializado em finanças estruturadas e gestão
de investimentos no setor imobiliário, o momento realmente
não é bom para quem emite Recebíveis
Imobiliários. "O mercado de CRI foi e ainda será
afetado pela crise, principalmente por conta da inflação
e do aumento na taxa básica de juros. O que ajuda este
tipo de investimento é a boa liquidez", diz Barros.
Outro analista, que preferiu não se identificar, levantou
outro obstáculo ao fim imediato da exigibilidade de
uso da poupança como funding. "A poupança
varia de acordo com a Taxa Referencial (TR), que está
muito abaixo da inflação. Já os juros
do CRI são atrelados à Selic. Ou seja, é
muito mais caro captar através dos recebíveis",
afirma.
Para Pinilha, toda essa discussão vai resultar em
um movimento natural do mercado. "Mesmo que os juros
caiam nos próximos anos, a poupança vai se tornar
cada vez menos atrativo para quem quer aplicar seu dinheiro.
Então, também não vai se sustentar como
fonte de recursos para o crédito imobiliário".
Ele lembra que, com a queda dos juros no ano passado, a poupança
chegou a superar, em rentabilidade líquida, alguns
fundos de renda fixa. "Mas quando isso aconteceu, os
bancos já queriam mexer na TR. Ou seja, a tendência
é que a poupança tenha sempre rendimento abaixo
da inflação", ressalta Machado, da Brazilian
Mortages.
Por outro lado, o CRI ainda é um instrumento praticamente
inacessível para o investidor pessoa física.
"Mas estamos avançando nessa questão. Para
baixar o valor mínimo de uma CRI, é preciso
que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM)
mude a regulamentação. E aos poucos, ela está
mudando", afirma Pinilha. De acordo com o executivo,
atualmente é inviável para as securitizadoras
emitirem Recebíveis de valor menor a R$ 300 mil. "Existem
muitos requisitos a preencher para se conseguir isso. Mas
até pouco tempo atrás, não era sequer
permitida essa emissão. Hoje, é inviável,
e estamos caminhando para torná-la viável".
Fundos Imobiliárioso
A Brazilian Securities esperam também um grande desenvolvimento
dos Fundos Imobiliários. "É um mercado
que demorou a se desenvolver no Brasil, mas que hoje está
se consolidando rapidamente", afirma Machado. Ele lembra
que, quando a Brazilian Securities começou a atuar
no mercado, em 2000, eles projetavam que o mercado de fundos
e recebíveis imobiliários já estivesse
consolidado em 2003. "Mas somente naquele ano, a Caixa
Econômica Federal lançou o primeiro fundo",
conta.
Na opinião de Barros, da Nova Financial,
o mercado de fundos, tanto o Fundo de Investimento (FI) quanto
o Fundo de investimento em Participação (FIP),
devem continuar em crescimento. "A nova regulamentação
que deve entrar em vigor para o FI deve fazer com que este
fundo ganhe muito espaço. Já o FIP vem cresceu
nos últimos 12 meses e ainda tem muito espaço
para crescer".
Atualmente, a Brazilian Securities domina o mercado de recebíveis
e fundos imobiliários. Das 11 ofertas em análise
na CVM, 10 são pedidos da companhia. "Mas existe
também um mercado grande de emissões com dispensa
de registro, que já têm compradores pré-definidos",
diz Pinilha.
Empresas como a Brazilian Securities defendem o fim da obrigatoriedade
do uso de recursos da poupança no crédito imobiliário,
mas construtoras defendem um período de transição
para essa mudança. |