SÃO PAULO - Acumulando
um crescimento pujante em 2008 -o volume estocado até
dezembro avançou 146% sobre janeiro-, as emissões
de certificados de recebíveis imobiliários (CRIs)
começam a dar sinais de arrefecimento. O colapso financeiro
internacional, que teve seu efeito no Brasil, refletiu-se
em uma desaceleração no lançamento dos
títulos, por conta da menor procura pelo mecanismo
por parte dos bancos.
Segundo dados da Cetip, o volume total estocado passou de
R$ 2,8 bilhões em janeiro deste ano para R$ 6,9 bilhões
até o último dia 17. Contudo, desde setembro
o ritmo de avanço mensal diminui: dos R$ 5,9 bilhões
verificados no último dia daquele mês para os
R$ 6,3 bilhões de 31 de outubro, o crescimento foi
de 6,78%. Comparando-se o volume daquele mês aos R$
6,9 bilhões da prévia de dezembro, o incremento
foi um pouco maior, mas abaixo de dois dígitos: 9,52%.
Entre janeiro e março, o avanço superou 30%.
"O forte crescimento de 2008 foi puxado principalmente
pela procura desses títulos pelos bancos", explicou
o diretor executivo da RB Capital, Glauber Santos. "Uma
flexibilização do Conselho Monetário
Nacional permitiu que eles investissem parte do dinheiro da
poupança na compra dos CRIs", continuou. Pelas
determinações do Sistema Brasileiro de Poupança,
65% do dinheiro oriundo desse tipo de investimento deve ser
repassado ao Sistema Financeiro da Habitação,
por meio de liberação de crédito. A compra
de CRIs passou a ser uma opção há cerca
de dois anos, mas, segundo Santos, houve maior procura dos
bancos pelo mecanismo em 2008. "Como a crise é
de crédito, o mercado mais atingido pela restrição
da liquidez é o bancário. Por causa disso, eles
diminuíram suas posições no título",
completou o executivo. A RB Capital havia emitido, até
setembro, R$ 600 milhões por meio do título.
De lá até dezembro, foram feitas apenas mais
duas emissões, que totalizaram R$ 50 milhões.
Para o diretor da Brazilian Securities, Fernando Cruz, o crescimento
verificado em 2008 se deve principalmente aos benefícios
fiscais oferecidos. "Nós conseguimos isenção
de Imposto de Renda e de Imposto sobre Operações
Financeiras para a pessoa física. E é isso que
o diferencia dos fundos de investimento e de outros tipos
de aplicação."
Com a menor procura de compra por parte das instituições
financeiras, os principais investidores do papel são
as pessoas físicas responsáveis por grandes
fortunas, oriundas de private banking, seguidos pelos fundos
de pensão. "Havia um conservadorismo por parte
do private banking. Agora, por conta da restrição
de liquidez, eles estão se voltando para outras alternativas,
com operações bem estruturadas", comentou
Santos. A rentabilidade também foi um fator determinante
para o aumento da procura de pessoas físicas pelo produto,
além da isenção do IR. Antes do repique
da crise, papéis atrelados à inflação
medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo
(IPCA) rendiam o benchmark mais cerca de 7,5% ao ano. No auge
da turbulência internacional, essa proporção
chegou ao pico de inflação mais 11% ao ano.
Agora, existe um processo de normalização, e
alguns contratos estão sendo negociados a 8% ao ano,
mais o IPCA.
Perspectivas 2009
Na RB Capital, estão em processo de emissão
mais duas operações, que somam R$ 150 milhões.
Santos prevê que, em 2009, os negócios somarão
valores menores do que os de R$ 2008, em torno de R$ 400 milhões
a R$ 500 milhões. "O primeiro trimestre do ano
que vem não será tão crítico para
o mercado quanto o último deste ano", avaliou
Bruno Amadei, sócio da Integral Trust . "Mas no
período ainda vai ser avaliado um processo de ajuste
da economia", previu, estimando que o mercado de securitização
voltará com força a partir do segundo semestre.
Outros executivos estão mais otimistas. "Por
um lado, há uma restrição de crédito.
Ao mesmo tempo, o CRI é uma alternativa ao financiamento
bancário. Empresas que precisam de alavancagem financeira
podem encontrar uma forma barata e rápida", comentou
Eduardo de Barros, da Nova Financial.
A empresa foi criada há seis meses, e já analisa
R$ 300 milhões em emissões. No primeiro trimestre
deste ano, serão feitos dois lançamentos dos
títulos. "Estamos com muita demanda", garantiu
Barros.
"Até o ano passado, houve uma explosão
no número de lançamentos imobiliários.
Esses empreendimentos levam de 18 a 24 meses para começar
a gerar crédito. Portanto, no ano que vem, ainda teremos
um grande volume de imóveis que poderão lastrear
os CRIs", ponderou Cruz, da Brazilian Securities.
Outra causa desse otimismo é a expectativa de que
a isenção de IR, hoje válida somente
para as pessoas físicas, seja estendida a empresas
e a estrangeiros. "Formamos um grupo de trabalho, e já
estamos discutindo as propostas com o Ministério da
Fazenda. Devemos ter novidades no decorrer do próximo
ano."
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